5 de setembro de 2026 Mercado e novidades do ônibus

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Mercado e novidades do ônibus

Ônibus trucado: por que ele pesa mais no preço

Capa da matéria da JM Utilitários sobre ônibus trucado e por que ele pesa mais no preço. À direita, foto de divulgação de um ônibus Comil Campione Invictus DD de dois andares, totalmente branco, em estúdio com fundo em degradê claro e trecho de asfalto tratado digitalmente. O enquadramento mostra a lateral traseira do veículo emergindo do painel escuro, com o bogie traseiro plenamente visível — duas rodas próximas, cada uma com seu arco de para-lama, o par de eixos traseiros de um veículo 8x2, de quatro eixos ao todo — sem placa e sem adesivo de operadora. À esquerda, sobre painel escuro, o chapéu GUIA, o título Ônibus trucado: por que ele pesa mais no preço, a linha de apoio O que muda no preço, no pedágio e na manutenção, o logo da JM Utilitários e o endereço jmutilitarios.com.br. No canto inferior direito, o crédito Foto: divulgação Comil.

“Ônibus trucado” é o apelido que o mercado deu ao veículo com um eixo a mais: três eixos (6×2) ou, no limite, quatro (8×2), contra os dois eixos do chamado toco (4×2). Na régua técnica que a JM usa para validar seus anúncios, 6×2 e 8×2 entram como trucado; só o 4×2 fica de fora. E aqui já vale abrir o ponto central: trucado é apelido de configuração, não de modelo: a mesma família de chassi sai de fábrica com um eixo a mais.

Na Mercedes-Benz, a mesma família O 500 rodoviária é oferecida em três configurações de eixo, cada uma com nome próprio: o O 500 RS, de dois eixos (4×2); o O 500 RSD, trucado de três eixos (6×2), como a própria Mercedes-Benz descreve em release de imprensa; e o O 500 RSDD, de quatro eixos (8×2). O sufixo é que diz a configuração; o número O 500 se repete nas três. A Scania publica ficha técnica separada por configuração de eixo: uma para o K 360 em 4×2, outra para o K 400 em 6×2, ambas emitidas em março de 2015. O mesmo K 400 sai de fábrica em duas configurações de eixo diferentes: 6×2, como no PDF acima, e também 8×2. Quando alguém pergunta “esse chassi é trucado?”, o nome do modelo sozinho não responde. É preciso olhar a configuração.

O que muda pra você

O eixo extra do trucado não traciona: ele só sustenta carga. A ViaCircular, site técnico especializado em estrutura de ônibus, descreve o conjunto de dois eixos traseiros em tandem como responsável por “distribuição proporcional de carga sobre as rodas de ambos os eixos” — menos peso concentrado em cada ponto de contato com o asfalto. Isso abre duas portas ao mesmo tempo: mais comprimento de carroceria e mais capacidade de carga.

Dá pra medir essa diferença com número exato. Entre o K 360 em 4×2 e o K 400 em 6×2, o chassi — a estrutura que sai da fábrica antes da carroceria — cresce de 8.630 mm para 9.340 mm, 710 mm a mais, e a capacidade máxima do conjunto traseiro passa de 12.000 kg para 17.500 kg, 46% a mais. Comprimento de chassi não é comprimento de ônibus pronto: quem define o comprimento final é o encarroçador, dentro do que a lei permite. O que o eixo extra entrega é base estrutural para carroceria mais longa e para mais carga por viagem.

A lei também entra na conta. Pela Resolução CONTRAN nº 882/2021 (texto integral via LegisWeb), o limite geral de comprimento pra ônibus não articulado é de 14 metros; o urbano com terceiro eixo direcional e a versão rodoviária 8×2 podem chegar a 15 metros. Na prática, o próprio fabricante já entrega essa conta pronta: a página oficial do O 500 RSDD declara carroceria de até 15 m para o chassi de quatro eixos (8×2). Trucado, portanto, não significa automaticamente 15 metros — nos rodoviários, os 15 metros são do quatro eixos.

Só que o eixo extra cobra a conta antes mesmo de rodar. O chassi trucado já sai mais pesado de fábrica: o K 400 pesa 1.244 kg a mais que o K 360, vazio, sem carroceria. Esse peso vira estrutura. E o pedágio no Brasil é cobrado por eixo. Segundo o Sem Parar, “o sistema calcula tarifas com base no número de eixos de um veículo” — um eixo a mais é uma faixa de tarifa a mais em cada praça da rota. Mais eixo também é mais pneu pra trocar; não achamos tabela de custo por quilômetro pra citar aqui, mas a lógica é direta: cada eixo a mais é peça a mais pra manter.

O detalhe técnico: como saber se o ônibus trucado é mesmo trucado

Como toco e trucado costumam ser o mesmo chassi, contar eixo pela foto do anúncio é o método mais fraco: carroceria e para-choque cobrem a visão, e o bogie traseiro nem sempre aparece direito. O dado confiável está no documento: o CRLV do ônibus costuma registrar a quantidade de eixos do veículo, informação que consta do cadastro oficial. Antes de fechar negócio, vale pedir também a plaqueta de identificação do chassi. Na Mercedes-Benz ela resolve sozinha, porque o sufixo muda junto com o eixo: O 500 RS é 4×2, O 500 RSD é 6×2, O 500 RSDD é 8×2. Na Scania não resolve — o mesmo K 400 sai de fábrica em 6×2 e em 8×2. Nesses casos quem responde é o CRLV.

Perfil lateral de um ônibus Comil Campione Invictus DD, cor prata, sem placa e sem adesivo de operadora, com fundo escuro de estúdio. Quatro eixos são claramente visíveis: dois próximos à esquerda (traseira) e dois próximos à direita (dianteira), com vão de carroceria entre os dois pares. Na faixa escura do rodapé, o texto 8x2: dois eixos na dianteira e dois na traseira explica que este ônibus soma quatro eixos ao todo, com a linha Perfil lateral de um Comil Campione Invictus DD: dois eixos dianteiros próximos e dois traseiros próximos somam os quatro eixos do 8x2, e o crédito Foto: divulgação Comil.

Existe até uma variação que inverte a lógica: o eixo extra fica na frente em vez de atrás. A Volkswagen testou essa configuração a partir de dezembro de 2020, num urbano de 15 metros, modelo 22.280 ODS, rodando entre Curitiba e Fazenda Rio Grande pelo Grupo Leblon. Segundo o Diário do Transporte, o veículo tinha motor de 277 cv, câmbio ZF de seis marchas e capacidade para 115 passageiros, sentados e em pé; o jornal atribui o ganho de manobra ao fato de os dois eixos dianteiros esterçarem, facilitando curvas e manobras em locais como terminais. Essa solução ficou no universo urbano. Eixo extra na frente também existe no rodoviário de quatro eixos, o 8×2 — mas ali dois eixos ficam na dianteira e dois na traseira.

Na prática: o que conferir antes de comprar um ônibus trucado

  • Peça o CRLV e confira a quantidade de eixos — é o dado mais confiável, mais que contar pela foto do anúncio.
  • Peça a plaqueta do chassi com o código completo — na Mercedes-Benz o sufixo já entrega a configuração (RS × RSD × RSDD); em outras marcas, confirme pelo CRLV. O apelido comercial do anúncio nunca garante a configuração.
  • Pergunte se o eixo auxiliar é direcional e qual o PBT do chassi.
  • Faça a conta da sua operação: a sua rota pede carroceria mais longa, ou mais carga por viagem? Se a resposta é não nas duas, o eixo extra pode ser custo sem retorno.

O eixo extra responde a uma pergunta específica: sua operação pede mais comprimento de carroceria ou mais carga por viagem? Quando pede, o trucado paga a conta que ele mesmo cobra. Quando não pede, o peso extra, o pedágio por eixo e o pneu a mais ficam sem retorno. No site da JM Utilitários você encontra ônibus rodoviários seminovos em configuração toco e trucada — para quem já fechou essa conta, dois pontos de partida são o Scania K400 6×2 e o Mercedes-Benz O 500 RSD.

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